“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos [Mt 5.6]”
Este verso é um dos mais conhecidos do Grande Sermão da Montanha, onde Cristo nos dá uma prévia do reino que haveria de vir. Em sua meditação, ele nos revela uma consolação interessante.
Vemos pelo mundo morte, desgraças, grandes acidentes e fenômenos naturais assustadores, desavenças gratuitas e sem razões, guerras, sangue, destruição, doenças, epidemias, etc. Vemos também o nível cultural da sociedade se decompor em liquidez e sexualidade, deturpação da verdade e da moral, a inversão de valores entre a ética social e o individualismo exacerbado, enfim, toda sorte de mudanças. Infelizmente, no mais das vezes para a pior. E como ficamos, nós cristãos, diante desse fenômeno incontrolável? Aceitamos, nos conformamos, aderimos… Triste realidade que deve ser combatida com esforços totais da alma que deseja se manter o quanto mais na sua integridade em relação ao mundo. De certo que fazemos parte do mundo, dele sendo participantes, mas não devemos deixar que isso nos influencie de qualquer forma.
Podemos até pensar: mas o que posso fazer para evitar essa regressão evolutiva? Nada. Não podemos fazer absolutamente nada, em relação à sociedade ante a essa transformação. Mas podemos tranquilamente influir nessa relação entre o “eu” e a sociedade. A atitude individual nasce de dentro do coração para fora, vazando pelos poros e atingindo nossa interação com o mundo.
Ter a paz na alma não é difícil quanto se pensa, é tão fácil quanto não maliciar uma pessoa ou um fato, tanto quanto não reclamar de situações incômodas, tanto quanto não ofender a qualquer alguém. É assim, fácil assim. Na verdade entender a influência e não desejar compartilhar de coisas desse gênero consistem em 80% da resolução do problema. Os outros 20% ficam distribuídos entre a ajuda de Deus, razões externas, sorte, etc. Se todos agissem como pacificadores (“Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus [Mt 5.9]”), seríamos todos luzes representantes de Deus formando na terra seu Reino.
Mas voltando à consolação que eu disse, o que me vem à mente pensando nesse texto diz respeito à forma como vemos tais problemas. Não devemos nos pesar ao refletir na degradação do mundo, mas (1) orar e lutar pela conversão das pessoas que não desejamos que sofram as calamidades atuais (“Eu sou pobre e necessitado; mas o Senhor cuida de mim; tu és o meu auxílio e o meu libertador; não te detenhas, ó meu Deus. [Salmo 40.17]”), (2) orar e lutar para que a mensagem do evangelho chegue aos gentios (“E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim. [Mt 24.14]”) e de verdade faça a diferença na vida daqueles que já conhecem a Palavra de Deus (“E então lhes direi, abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.[Mt 7.23]”), também mantendo-se fiel em tudo o quanto for possível, em sinceridade e intenção de coração, despindo-se das vontades carnais e renunciando no que for impedimento ao viver em santidade (“Como purificará o jovem o seu caminho? observando-o, conforme a tua palavra. / De todo o meu coração te busquei: não me deixes desviar dos teus mandamentos. / Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti. / Bendito és tu, ó Senhor; ensina-me os teus estatutos. [Salmo 119.9-12]”).
Cristo pela sua morte estabeleceu o Reino de Deus na terra, que não é nesse primeiro período nada extraordinário, mas uma concretização da Lei Mosaica – uma conquista do seu sangue divino. Pela graça de Jesus e interação com o Espírito Santo, temos nós o poder de tomar uma atitude, manter uma postura cristã adequada à lei de Deus.
Ser pacífico, não é uma questão de fé ou milagres simplesmente, mas de postura. Eu posso ver uma discussão e (1) irado, me envolver na briga, (2) prudente, atentar para que tudo se acalme naturalmente, (3) relapso, fingir que não estou vendo ou ainda (4) ser omisso, podendo ajudar e não o fazendo. Uma postura de paz escolheria com certeza a segunda opção, tendo a livre consciência de que não ter por bem ou por mal parte A ou B, sendo obediente à consciência do bem, estamos vivendo a paz.
O ser humano deixa de ser um simples animal pelo simples fato de simbolizar as coisas, tornar situações ou visões em símbolos, ícones, representações. Desta forma: uma cruz, para um cristão tem o significado da sua fé; para um muçulmano, representa a raça inferior dos “infiéis” e para os judeus, como a outras religiões, dá a idéia de representação do povo que crê em Cristo. Portanto, os fatos sempre existirão e serão iguais em todos os ângulos: o que varia para bem ou para mal é a forma como reagimos a tais coisas. Se não fosse assim: um belo e visto homem nu causaria a mesma reação em mulheres e homens, gays e lésbicas, dos mais novos aos mais velhos, incluindo as crianças.
Tendo como base de análise essa idéia de simbolismo e de postura moral, chegamos à conclusão de que podemos – tendo a fome e sede da justiça de Deus – vivermos a nossa parte na instituição do Reino de Deus na terra aguardando sempre confiantes o retorno de Jesus Cristo, onde isso será consumado eternamente.
Dificuldades? Deus te ajudará se fizeres desta forma (1) reconheça suas falhas, (2) peça perdão a Deus por seus pecados, (3) reconheça que você precisa de ajuda e que Ele é o único que o pode ajudar com isso, (4) esteja disposto de coração a mudar a qualquer custo, (5) medite na palavra de Deus – Ele falará contigo!, (6) busque sempre a santidade, ainda que falhando, não desista, (7) agradeça a Deus e sempre tenha em sua boca o louvor a Ele. São estes os passos detalhados que se resumem numa única lei espiritual: “Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que, a seu tempo, vos exalte [1Pe 5.6]”.
Taiguara Pires – “Ensaio: Fome e Sede de Justiça”
Terça-feira, 29 de abril de 2008 21:00h
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